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| Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte... |
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Vivemos tempos difíceis. Creio que o leitor não discordará desta afirmação.
O leitor que, assim como eu é um caminhante deste mundo moderno, encontra-se
diante das mazelas psíquicas que estão aí para provar que o ser humano
se afunda em suas tristezas, depressões, fobias, medos. Por outro lado,
quanto mais a medicina avança para curar as enfermidades, mais o homem
não consegue tempo para usufruir da medicina preventiva. Já não se vai
ao médico de forma profilática. Socorremo-nos dos “milagres” da medicina
quando a fadiga já tomou conta do corpo, quando o câncer já absorveu
o organismo, quando os pulmões estão prestes a não cumprirem mais suas
funções.
Normalmente, não há recursos financeiros para a medicina preventiva. E, quando há, não se encontra tempo. Os governos e educadores não possuem tempo, vontade e dinheiro para estimularem ações profiláticas. O ser humano come desenfreadamente. Engorda. Fica obeso. Gasta com cirurgias para reduções plásticas. Ou, então, não come, não se alimenta, se torna anoréxico, compulsivo, deprimido. O lado sentimental humano também está enfermo. Já não se chora. Ou, vive-se em prantos. São comuns enfermidades que isolam o ser humano e o aprisionam em um quarto, uma sala, uma casa, com receio de não ser amado e não conseguir amar. Os laços humanos se formam por interesses pessoais, individuais que menosprezam, excluem. As vozes que gritam por liberdade são as mesmas que assolam. Os pedagogos, professores e escolas requerem do ser humano uma educação bancária, presa a salas de aulas, em que se mede pelas notas auferidas e os melhores sempre se sentam nas primeiras cadeiras. Não é gerado mais o prazer de aprender. A modernidade gerou a cobrança do saber. Não se permite mais haver dúvidas. Quem tem dúvidas não é sábio. A dúvida é coisa de quem não sabe e que, por certo, será desprezado pelos professores modernos que exigem notas altas, acúmulo de conhecimento e não de sabedoria. A dúvida não gera mais riscos. Não se arrisca, portanto, não se aprende. Os sábios arriscam, escolhem, erram. Mas, ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte... Não temerei mal algum! Espero que o “leitor-caminhante” veja como eu e enxergue através da expressão do salmista, possibilidades. É isto. Esta frase traz possibilidades. Esta frase renova a capacidade de sonharmos. Eu tento imaginar o escritor bíblico diante de um vale assombroso. Cheirava morte, destruição, faltava oxigênio, o odor era de carniça. Este era o vale que ele enxergava ou, ainda, em que vivia o escritor sacro. Opressão, dor, velhice, juventude sem esperança, infância privada e oprimida. Desigualdade social. O vale que ele andava era a sombra da própria morte. De repente, em meio ao vale, ele sonha. Ele sonha com uma possibilidade de não temer, uma possibilidade de atravessar, de andar, de correr. O vale não destruiu sua ousadia, sua capacidade de inventar, de criar. Ele ousou, sonhou, incorporou novas experiências, ampliou os horizontes, se encorajou, foi encorajado, refletiu, refez caminhos. Quem sabe foi chamado de fracassado no vale da sombra da morte. Quem sabe ele, que errou tanto, não teve acertos, não tinha motivos para boas notas. Nunca sentou na primeira carteira. Mas, de repente, ele pode ensaiar novamente, voltou a caminhar. Ele perdeu o gol e muitos debocharam; ele chutou fora e foi menosprezado. No vale, ele pensou em não jogar mais. No vale, ele pensou em entregar o uniforme para o treinador. No entanto, de repente, o caminhante encontrou forças porque ousou sonhar novamente. Sim. Ele sonhou. Pegou a bola e voltou a correr pelo gramado mesmo sabendo que poderia não acertar o passe e marcar o tento. Mesmo vendo o estádio vazio. O sonho traz o encontro do divino-humano-divino. Pasmem! Só quem sonha pode perceber a possibilidade do Criador perto da criatura e vice-versa. E o caminhante sonhador percebeu que o divino estava presente e que o divino renova. A presença do Criador dos sonhos (pois afinal, Ele sonhou o mundo e a humanidade) o tocou e o caminhante se deixou tocar. Encontrou nos sonhos não só a possibilidade para sair do vale, mas para viver e continuar a sonhar no vale. A vida sorriu. O caminhante não se sente sozinho; se sente amparado e protegido por novas expectativas, possibilidades e esperanças. O caminhante cristão pode perceber que os sonhos não acabam. Pena que muitos seguidores do Cristo param de sonhar. Amigo caminhante: não perca a esperança em meio ao vale da sombra da morte. Perceba: O Criador da Vida está perto de você. Um dia Ele também caminhou no vale da sombra da morte. Não desistiu. Zombaram, desprezaram, mataram. Mas o sonho do Reino Ele estabeleceu. O sonho do Reino de Deus que inclui, acolhe, aproxima, ama, abraça está aqui. Sim, bem aqui, no vale. Por mais penoso que possa parecer o vale que você está caminhando, durma, descanse e sonhe. Acorde e continue sonhando. O Deus que sonha está comigo e com você em meio ao vale. Você não pode parar de sonhar. Mesmo que o leitor-caminhante esteja num leito de dor em fase terminal. Mesmo que já tenha ultrapassado os oitenta, noventa anos. Mesmo que na juventude já tenham te tirado todas as esperanças e que a tua infância acabou tão rápido e você nem percebeu. Mesmo que o vale seja profundo demais. Termino lembrando a experiência de um cuidador de uma portadora de Alzheimer. A mulher, enferma, já não se lembrava de mais nada. Moribunda aguardava a morte. O cuidador, entretanto, a visitava constantemente. Um dia ele foi indagado: amigo, qual a razão de você visitá-la constantemente? Afinal, ela não sabe que você está lá. Ela não pode conversar com você, ela não te sente e nem te percebe mais, ela já não sonha com mais nada... O cuidador respondeu: É verdade! Entretanto, eu sei que ela está lá, eu converso com ela e ainda sonho por mim e por ela. Sonho com a nossa eternidade. Creio que assim é com o nosso Deus. Ele está sempre perto, sonhando com você, mesmo que você não esteja percebendo, mesmo no vale profundo... Mesmo que você o tenha esquecido. Ele ainda sonha com a possibilidade de passar a eternidade com você. Sonhe! Não desista jamais. Pense nisto! |
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Rev.
Edvaldo Oliveira
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