No tempo oportuno e favorável chamado hoje!
"E Deus limpará de seus olhos toda a lágrima; e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor; porque já as primeiras coisas são passadas" Ap 21.4
Muitas vezes, nos debruçamos sobre o papel, ou, agora, nos tempos modernos, ficamos em frente ao computador, com vários pensamentos, ideias, mas não conseguimos conectá-las, transformá-las em palavras que possam expressar o desejo do nosso coração. Aí paramos, na expectativa de que o tempo nos ajude a vencer as barreiras. Creio que foi ele, o tempo, um dos fatores que permitiram que eu pudesse compartilhar, novamente, algo com você, leitor caminhante. Mas não foi o tempo cronológico, e sim o tempo oportuno, o tempo certo, o tempo favorável.
Creio que este é o tempo que precisamos viver. Apesar da mesmice, do choro, do cansaço e, quem sabe, do desânimo, não podemos deixar de viver o tempo oportuno. Lembrei-me de que este sempre é o tempo de proclamar que há esperança. Estamos chegando na época litúrgica de trazermos à memória a existência do Deus que rompe a história, através de Jesus Cristo, e, pela sua vida, morte e ressurreição, participa da história, da minha história, da sua história, através da ação do seu Espírito Santo, com um único objetivo: Salvar! Esta salvação, este ato acolhedor, este sentimento de Deus habitando com o povo, em Jesus Cristo, se torna algo presente, dentro da história humana.
Vivemos um tempo de incertezas, dúvidas. O ser humano se vê coagido em meio aos perigos da vida urbana, insegura e competitiva. O objetivo deste texto é lembrar ao leitor de que o Deus em quem nós cremos está presente na história, luta junto ao povo e caminha conosco rumo ao tempo pleno, perfeito.
Um tempo em que o escritor do livro do Apocalipse afirma que o mar não existirá. O mar, figura mítica que se identifica com o caos, símbolo do caos e dos impérios da morte, não existirá. Cremos num Deus que, em Jesus Cristo, venceu o mar. Caminhou sobre o mar, repreendeu o mar. Ele venceu o caos. O visionário escritor identifica a possibilidade da derrota “do mar”, aqui, agora e eternamente.
Mas ele também percebe a derrota da morte. “A morte não mais existirá”. Infelizmente, o ser humano moderno, muitas vezes, respira, caminha, mas está como morto. Perdeu o horizonte e as utopias, vivendo de ilusões. Aí surgem as religiões oferecendo, como num grande supermercado, várias possibilidades de vida. Algumas oferecem muita prosperidade, saúde, livramentos. Muitos são vencidos pelas “ofertas do mercado religioso”. O texto também afirma que a morte não mais existirá. Mas, no fim, ela sempre chega. Não tem jeito, a morte física não foi vencida. A psíquica e a espiritual também estão por aí, sempre rondando o ser humano. Especialmente, atingindo aqueles que não vigiam, não ficam atentos. Sim! Hoje, eu creio, os sacerdotes já são mais procurados por pessoas que beiram a morte, mesmo estando vivas, que já não têm aspirações, estão confusas em meio ao caos de dúvidas, incertezas, sem sonhos, afundadas em excesso de trabalho ou na falta dele. Extremamente mimadas ou mortas, por não receberem nenhum carinho, afago. Creio que o número destes “ofícios” é maior que os “ofícios” dos mortos físicos. Sim, as pessoas clamam por “vida”, ainda que estejam respirando.
A morte pode vir quando o coração para, pois o cérebro deixou de enviar os comandos. Ela pode chegar através de um assombro, um susto, um desapontamento, um colapso. Entretanto, não há jeito, ela sempre chega. Ela desafia a esperança em grau máximo. Nada conseguiu vencer a morte. Nada produzido nos laboratórios. Alguns remédios combatem a morte psíquica, causada pela dor, pela opressão, perdas etc. Mas a morte final, aquela do último respiro, não foi vencida. Mas o inspirado autor bíblico afirma que a morte não mais existirá. E aí voltamos para o cerne desta reflexão: o campo da atuação de Deus não se realiza apenas fora da nossa história, mas dentro dela também. Portanto, se sinais de morte, ações, sentimentos, enfermidades estão te ameaçando e gerando morte, permita que a vida brote através da esperança que habita na fé cristã. O Cristo venceu inclusive a morte eterna e possibilita vivermos os sinais da vida eterna, a completa vitória sobre a morte, agora, aqui, na nossa história. Saiba que, mesmo quando tudo terminar e a morte de fato chegar, nós viveremos com Cristo, o mesmo que já habita conosco hoje. Não tenhamos pavor, portanto, do caos e da morte que estão sempre diante de nós. A vida faz parte da nossa história, pela graça do Cristo que venceu e vive. Então, tanto a morte final como os sinais de morte presentes, em meio à vida, serão vencidos se vivermos a vida com expectativas não só presentes, mas, também, eternas. A morte pode ser derrotada hoje, no seu viver atual, e plenamente no final, no último suspiro, na eternidade.
A esperança, desafiada, vence o caos e a morte, pois, mesmo em meio às lágrimas, afirmamos que continuará havendo história. Não só num futuro distante, mas hoje, pois o Deus em quem cremos enxugará as minhas lágrimas e as suas lágrimas. Quando? Hoje e na eternidade. Não podemos viver numa expectativa passiva, esperando a chegada do “final do mundo”. A esperança deve vencer qualquer sinal de fatalismo.
O que eu espero que você faça é que olhe para você mesmo. Sim, tente olhar para dentro de você. Você está cansado, no fim das forças, as lágrimas rolam dos seus olhos cansados e angustiados? Isto não é a catástrofe final; ao contrário, perceba o horizonte. O sol nascerá. O Criador sempre está conosco, mesmo em meio ao caos, sinais de morte e lágrimas, para transformar, participar e gerar vida.
Eu espero que este texto te motive a renovar suas esperanças em Deus que “se inclina para nos ouvir”, a renovar suas forças e a reacender suas utopias. Lembre-se: Temos um Deus que nos chama de filhos. Talvez ser chamado de filho não signifique muito para você. Entretanto, se você permitir que Deus conduza e governe sua vida, enxugue suas lágrimas, você vai perceber o que é ser filho de Deus. Eu não tenho como te explicar. É preciso que você sinta. Lembre-se: o objetivo da ação paterna de Deus é salvar, e não castigar, abandonar e condenar. Somos filhos de Deus.
Permita-me lembrar de Santo Agostinho: “Inquieto está, Senhor, o nosso coração até que repouse em Ti” Quando você deixará para trás as inquietações? Quando você permitirá que o seu coração repouse em Deus? Só lá no céu? Eu te afirmo, é possível acreditar que o mar, o caos, as lágrimas, toda a vida, enfim, pode ser conduzida pelo Criador, que é “papaizinho”, aqui e agora, na sua história, no seu momento, e, por certo, na eternidade.
Como é bom poder falar para você, leitor, que Deus se faz presente hoje. Esperança tem de trazer coisas novas. Nosso Deus é um Deus de novidades. Perceba-as hoje! Mesmo que novidades simbolizem perigos, elas também te tirarão das mesmices, do enfado e do desânimo. Não falo de algo abstrato, mas possível de ser vivido aqui e agora. Falo de esperança, de vida, de páscoa! “Passemos para a outra margem.” Atravesse rumo à vida. Como o escritor do Apocalipse, não podemos deixar de ver um novo céu e uma nova terra. Percebermos que o mar já não existe. Que Deus enxuga dos olhos toda lágrima e que a morte não existirá. Quando? Agora e na eternidade! Você crê nisto? Então viva. Viva hoje e eternamente. Respire vida, pois já é possível enxergarmos a ressurreição!
Que Deus te renove!
Com estima pastoral,
Reverendo Edvaldo Oliveira