Vivemos a quaresma. Este é um tempo de reflexões, avaliações, de repensarmos a fé. Mas, afinal, o que é fé? No que cremos?
Entendo, pelas minhas reflexões na teologia da graça, que ela - a graça de Deus - é a fonte de todas as misericórdias, favores e o amor divino. Entretanto, há no ser humano a capacidade de perceber o Criador e a sua graça. Há uma porta de entrada para esta percepção. Esta porta eu chamo de fé. Por esta porta entramos e vamos crescendo na fé que se torna uma convicção, uma certeza. No entanto esta pequena raiz deve crescer e sair da terra, gerar frutos. Chamo este crescimento de confiança. A certeza precede a confiança. Confiança é um sentimento profundo que deve levar o ser humano à dependência de seu Criador. Podemos entrar e cear, participar do grande banquete oferecido por meio da fé.
Portanto, como anda a sua fé? Sim, a confiança no sacrifício de Cristo, confiança nos méritos do Cristo através de sua morte e ressurreição. Lembre-se: é possível descansarmos nesse favor. É certeza de pecados perdoados e, através disto, possibilidade de uma profunda aproximação com o Criador. A esperança está restabelecida. Pela fé é possível sentir-se purificado pelo Criador e ter uma vida em amor. Cheio do amor divino, o ser humano haverá de olhar e perceber as injustiças e lutar contra elas. Mesmo no sofrimento, encontrar alegria, a fim de que o amor divino possa encontrar mais espaço neste mundo.
Portanto, a fé não pode ser encarada ou percebida como uma forma de mérito, simbolizado, talvez, por uma medalha no peito ou um estandarte a ser erguido. Fé é graça.
O meio, ou seja, o intermédio, a mediação da salvação humana, não é a sua fé. O meio é aquilo que o Criador projetou e realizou mediante o sacrifício da Cruz. Fé não é a causa da salvação. A causa é a graça. A fé não é a síntese da salvação. Tudo é obra do Criador. No entanto, a fé é um instrumento da salvação, um utensílio, uma ferramenta, um caminho ofertado por Deus. É o primeiro passo à salvação, o primeiro impulso. O justo vive da fé. O verbo no presente ajuda a caracterizar mais a idéia de processo de salvação, que é concretizado pelo indivíduo mediante uma fé crescente.
Leitor, neste tempo de quaresma, nós não podemos esquecer que foi o favor de Deus, em Jesus Cristo, que permitiu nossa salvação. Você crê nisso? Veja: A fé é a graça de se obter a convicção divina não só de que Deus estava em Cristo reconciliando o mundo consigo, mas também de que Cristo amou a cada ser humano e deu-se a si mesmo por cada um. Inclusive deu-se por mim e por você. Por esta fé recebemos a Cristo. Somos capazes de ver, de olhar a vida com convicção interior, ainda que não se possa, de forma positiva, enxergar o exterior das coisas, dos fatos.
Muitos estão distantes do desafio que farei agora. Mesmo assim, ouso fazê-lo: Pela fé, vamos aceitar o favor de Deus, ofertado para mim e para você. Este favor possibilita uma entrega que, processualmente, nos conduz a descansarmos nos braços dos pais, dos queridos, como uma tenra criança que confia. Deus está conosco! Será que ainda conseguimos confiar nisto? Ele prometeu que jamais nos deixaria órfãos ou sozinhos. Creio que é tempo de pedirmos: O dia já declina, fica conosco, pois a noite está chegando.
Atravesse este tempo de quaresma confiando no grande amor de Deus por você e por mim. Amor que foi capaz de romper a história e encontrar-se com o ser humano, permitindo que a esperança brotasse, crescesse e frutificasse através das nossas vidas. Espero que seja um tempo de sentirmos Cristo e confiarmos nele - o Cordeiro de Deus. E que seja um tempo de sentirmos a segurança de que Ele tirou nossos pecados e nos salvou da lei, do pecado e da morte. Por isso, a fé cristã não pode isolar-se do engajamento à busca do amor, da comunhão, da paz. Cruz, eucaristia e ressurreição - fincados neste tripé, os seguidores do Galileu sempre caminharão, com fé e confiança, rumo a infinitas possibilidades para que o Reino de Deus e os seus valores sempre sejam proclamados.
Que assim seja!

Reverendo Edvaldo Oliveira