Tenho afirmado
que dependemos da graça de Deus. Entendo que Deus nos perdoa dos pecados
e, portanto, “justificados”, mediante a fé em Jesus Cristo, podemos
ter paz. Entretanto, também entendo que podemos prosseguir para o
alvo da soberana vocação, caminhando em santidade de vida.
A justificação é o começo, e não o final da ação salvífica do Criador.
Portanto, creio que posso afirmar que se alguns ensinamentos, dentro
do âmbito do cristianismo, podem chamar-se propriamente fundamentais,
são eles: justificação e santificação.
Aprendi, e compartilho com o leitor, que justificação é a ação de
Deus (graça, favor) de perdoar nossos pecados. Santificação é a ação
de Deus (graça, favor) ao renovar a nossa vida machucada, decaída
pelas ações pecaminosas oriundas de ações contra o nosso semelhante,
contra nós mesmos e contra a natureza. Somos regenerados. Pela graça
divina, somos revivificados, novamente gerados. Por isso, podemos
afirmar que somos salvos num processo que é aberto pela graça que
perdoa, mas que também restaura, transforma, nos faz crescer e possibilita
refletirmos a imagem do Criador.
Pense: A graça é santificante e permite ao ser humano tornar-se cada
vez mais parecido com o doador da graça, um agente da graça que cuida,
liberta e santifica. A graça é obra do Deus Criador, mas pode e deve
ser absorvida na vida do ser humano. Esta absorção é, portanto, uma
ação humana. Isto só pode ser compreendido a partir da interação do
conceito de graça com o de fé, de boas obras e de responsabilidade
humana. Isto é processo, é caminho, é santificação.
Neste caminhar, as ações humanas devem se tornar santas, perfeitas,
como perfeito é o Criador. O próprio Deus nos proporciona meios para
trilharmos o caminho da santificação. Quais meios? Eucaristia, oração,
leitura bíblica, participação na vida comunitária.
Estes meios
não devem ser usados de forma solitária. Como viver o amor na solidão?
Como viver em santidade sem perceber a dimensão social da vida humana?
No cristianismo, isto não é possível. Não se vive o cristianismo de
forma solitária. Não se vive em santidade sem o próximo.
Ora, você, leitor, já ouviu falar de piedade e de misericórdia. A
santificação não ocorre sem que o próximo seja colocado como referência
prioritária. Não enfatizo nenhuma experiência de santidade de forma
privada em que o indivíduo, apenas, perceba a manifestação da graça
de Deus. Isto é possível e necessário, mas não enfatizo isto. Enfatizo
a dimensão sociocomunitária do cristianismo, muito mais difícil de
viver e mostrar. Justificação e santificação dimensões da graça,
do favor do Criador. Entretanto, a dimensão sociocomunitária se desenvolve
na inter-relação. A justificação pressupõe um ato de fé pessoal; a
santificação implica na existência do outro, do próximo, tanto no
nível familiar, comunitário, eclesiástico como no espaço público (trabalho,
escola etc.). Portanto, meu leitor caminhante, eu peço que você responda
à pergunta do título deste texto: Amor fraternal e santificação: dá
para separar?
Eu espero que você responda de forma prática, vivendo um ano de forma
solidária e participativa no seu lar, na igreja, no seu trabalho.
A solidariedade transmite o amor de Deus de forma prática e santa.
A solidariedade se expressa através do repartir seu tempo, seus dons,
suas finanças, seu conhecimento. Não há santificação sem o amor que
nos conduz à dimensão social da vida humana.
Termino parafraseando o texto da primeira epístola de Pedro, no seu
primeiro capítulo, versículos 15 e 22: “Purifique a vossa alma,
pela obediência à verdade, tendo em vista o
amor fraternal não fingido; amai-vos de coração, uns aos outros ardentemente,
pois você foi regenerado não de semente corruptível, mas de incorruptível...
pelo contrário, segundo é santo aquele que vos chamou, tornai-vos
santos também vós mesmos...”
Meu leitor, eu e você temos ouvido muito sobre “vida em santidade”.
Lembro você da Palavra Bíblica: Deus, que é santo, é amor. Percebe?
Creio que não preciso dizer mais nada. Tenho visto tanto tempo gasto
correndo-se atrás da “tal santidade”, sem amor, sem prática social,
sem solidariedade. Impossível!
Caminhemos e até o próximo encontro!