O
grito de socorro do salmista talvez expresse a voz do ser humano diante
das situações limites, medos, desafios, angústias.
Em algum momento da vida, todos nós já ficamos perante o nosso futuro
nas mãos de outras pessoas, dependendo das decisões dos outros. São
os atos dos outros que determinarão o remédio que vamos tomar, o tratamento
a ser feito diante da enfermidade, se seremos promovidos ou demitidos,
se as nossas carreiras florescerão ou, como esta rosa, que está diante
de mim, neste momento que escrevo, murcharão, perderão o seu perfume,
a sua beleza. Somos responsáveis por aquilo que acontece nas nossas
vidas. Entretanto, muitas vezes, não dependemos de nós.
Quem já não fez a melhor redação possível, como eu estou tentando
fazer agora, e foi reprovado diante do olhar mais crítico do avaliador?
Quem não deu o melhor de si no seu trabalho e foi criticado pelo chefe?
Qual o orador que, pensando ter elaborado a melhor mensagem, não saiu
criticado pelo público? Na verdade, estamos, frequentemente, à mercê
de outras pessoas, sob uma perspectiva humana.
Recentemente, ouvi de uma pessoa conhecida um ditado, no mínimo, muito
estranho: “Viúvo é quem morre”. Ouvi outro mais estranho ainda: “Rei
morto, rei posto”. Acho que é isto. Estranhos ditados. Mas pude notar
que estes ditos saíram de lábios e, por que não, dos corações de pessoas
que foram feridas, magoadas. Trabalharam tanto, se esmeraram tanto
nas suas funções e, por situações diversas, se veem desempregadas,
à mercê de incertezas, sentindo a ação fria de um mundo onde o mercado,
o ganho, o lucro, as metas, os bônus estão acima de qualquer sentimento
humano. Ainda pior, lá no meio da conversa, escutei um eco da voz
de alguém dizendo: é assim mesmo, contente-se, pois poderia ter sido
pior. Pior? Há algo pior do que não ouvir a gratidão, a solidariedade,
o carinho, a compensação, o amor do semelhante, do colega de serviço,
do superior do trabalho, da família, daqueles que pensávamos ser nossos
amigos e até chamávamos de irmãos?
Socorro, Senhor! Pois o Senhor nos chama a ser pacificadores, solucionadores
de conflitos no meio deste mundo, por vezes, tão hostil. É isto. O
salmista, diante de situações semelhantes, pede socorro ao Criador.
Creio que estamos ouvindo o clamor de um ser humano extremamente necessitado,
desapontado, ferido, buscando ajuda, que só encontra no seu Deus.
Peregrino e solitário, ele busca ajuda em Deus, que pode mudar a história,
interferir nas situações e decisões dos outros e mudar as circunstâncias.
Deus, para o salmista, é o seu guardião. É Ele quem o guarda em meio
ao forte calor do sol e na longa noite escura e fria. Nas entradas
e saídas, agora e sempre.
Por, talvez, estar diante de um “não” quando esperava um “sim”, diante
de um “não foi aprovado”, quando esperava um “foi aprovado”, diante
de um “sim, é maligno”, quando esperava “sim, é benigno”; o salmista
eleva os seus olhos e contempla as montanhas de dificuldades e, diante
delas, afirma: “O meu auxílio, o meu socorro vem do Senhor”. O meu
Guardião é maior que a própria morte! Eu posso confiar no meu Deus.
Meu leitor caminhante, peregrino, o Deus em quem nós cremos não deixará
que os nossos pés tropecem em nenhum momento das nossas vidas. Talvez
você, assim como eu, precise elevar o olhar. Tento redigir este texto
e, enquanto o faço, me defronto com a extrema dificuldade de conviver
com minha mãe hospitalizada há mais de dez dias. Segundo os médicos,
o seu estado é terminal. A vontade é de ficar cabisbaixo, olhando
para o chão, desanimar. Por vezes, parece que não consigo perceber
que não estou sozinho diante do tamanho da enfermidade que a assola.
Sinto-me impotente. De repente, deparo-me diante desta joia da Palavra
de Deus, que assegura proteção para mim, para ela e para os meus familiares.
Estamos todos nós numa viagem perigosa. A viagem da vida. Enfermidades,
pessoas, situações, tempestades, circunstâncias estão aí para abalarem
a nossa peregrinação. Olhemos para as montanhas. Não com medo, mas
com coragem. Talvez, elas representem as dificuldades, as ansiedades.
Entretanto, no momento em que “montanhas” destes sentimentos quiserem
me abater, te abater, vamos lembrar juntos: O Senhor guarda a nossa
caminhada, atravessaremos, passaremos, venceremos. Alcançaremos a
ascensão nos dirigindo a Deus.
O nosso Deus não está confinado em um lugar ou em uma época. Ele está
aqui comigo, no meu momento, e está aí com você, no seu momento. Ele
é maior do que a dor, o sofrimento, os inimigos. Ele é maior que o
nosso maior inimigo: a morte. Ele a venceu, Ele ressuscitou. Nós venceremos.
Você está abatido, desanimado, cansado, já não acredita mais nos amigos,
informações, trabalho, instituições? Olhe para o céu. Não com a arrogância
e a prepotência do fariseu, lembra-se? Não. Olhe para o céu porque
pela graça de Deus eu e você somos os pecadores, os sofredores aceitos
e amparados pelo Cristo Sofredor. Não confiamos na piedade dos outros
– pode falhar –, mas confiamos na piedade do Senhor Jesus.
Que este texto possa te ajudar – assim como está me ajudando –, com
muita humildade, a olhar para cima. Quem ainda me permite erguer a
cabeça e olhar para cima a despeito das inseguranças é a graça e o
favor de Deus. Não é a religiosidade, muitas vezes falsa. Mas é o
favor de Deus.
Eu creio que é o meu tempo de clamar por socorro. Se também for o
seu, vamos clamar juntos: Socorro, Senhor! No entanto, vou
olhar para cima, para além dos problemas e confiar no Deus que já
guardou a minha entrada neste mundo e, com certeza, guardará a minha
saída dele. O Senhor que muda sentimentos, revigora, transforma e
modifica situações guarda a minha vida. Eu quero crer nisto. Você
quer crer também?
A minha fé está na piedade de Deus. É ela que sempre vem ao meu encontro,
ainda que muitos insistam em pensar o contrário...
Fevereiro de 2010. Tempo de perceber o socorro do meu Deus!
Com carinho,