O movimento metodista
teve seu início há quase três séculos, na Inglaterra. Era uma época
em que a sociedade inglesa passava por rápidas transformações. Milhares
de pessoas saíam da zona rural, que era controlada por grandes proprietários,
para procurar trabalho nas novas indústrias das cidades. Era uma época
em que o povo vivia na miséria, trabalhando longas horas e só ganhando
o mínimo necessário para sua sobrevivência.
As pessoas moravam em cortiços, sem as mínimas condições e, quando
ficavam doentes, não tinham acesso a médicos. As crianças não iam
à escola porque, em geral, trabalhavam para ajudar seus pais. Havia
grande número de viciados, especialmente de alcoólatras. A Igreja
Anglicana era a igreja principal da época, mas não se preocupava com
o sofrimento do povo e estava acomodada na prática de cultos alienados.
Havia outras pequenas igrejas e grupos religiosos promovendo a renovação,
mas quase todas se mantinham na piedade individual, sem qualquer compromisso
com a sociedade. As igrejas tentavam salvar o indivíduo sem, entretanto,
lutar por uma sociedade mais justa.
Neste contexto, de sofrimento do povo e de igrejas alienadas, um jovem
sacerdote chamado John Wesley teve sua vida radicalmente mudada através
de uma experiência maravilhosa. (1)
Missão na Georgia
No mesmo navio, "Simmonds", em que Wesley e seus companheiros
viajaram para Georgia, 25 morávios sob a liderança do
bispo Davi Nietchmann, também se dirigiam para o novo mundo.
Wesley mal havia se instalado no seu camarote quando decidiu aprender
o alemão para poder se comunicar com essa gente. Apenas três
dias após o embarque, ele se referiu, em seu diário,
aos morávios como "pessoas que deixaram tudo pelo Mestre,
e que têm realmente aprendido dele, sendo mansos e humildes,
mortos para o mundo, cheios de fé e do Espírito Santo."
Diversos eventos durante a viagem confirmaram para ele a primeira
impressão. Eles faziam, aparentemente com alegria, tarefas
tidas como as mais humildes, dizendo que "fazia bem aos seus
corações altivos". Mas foi numa tempestade feroz,
que aterrorizou os passageiros ingleses e até os tripulantes,
que Wesley notou a grande coragem dos alemães. Mesmo no auge
da tempestade, continuaram seu culto costumeiro, nem parando de cantar,
apesar de tudo indicar que o navio não fosse aguentar a força
do mar em revolta. Após o culto, Wesley perguntou a um deles
se não havia ficado com medo. Ele respondeu singelamente: "Graças
a Deus, não." Não inteiramente satisfeito, Wesley
indagou sobre as mulheres e crianças. A resposta veio: "Não,
nossas mulheres e crianças não têm medo de morrer."
(Diário, 25/01/1736). (2)
O resultado
de dois anos de missão: frustração
A frustração com que Wesley terminou sua missão
no Novo Mundo e voltou para a Inglaterra, transpareceu em seu diário,
em 24 de janeiro de 1738, poucos dias antes de aportar na Inglaterra:
"Fui à América para converter os índios;
mas quem, ó quem, converterá a mim? Quem ou o que me
livrará desse coração descrente? Eu tenho uma
bela religião de verão. Posso andar bem, e até
crer, quando nenhum perigo está perto. Mas quando me encontro
cara a cara com a morte, o meu espírito fica perturbado. Não
posso declarar, o morrer é lucro." (2)
O dia 24
de maio de 1738
O dia nasceu para Wesley pleno de esperança. Seu primeiro ato
ao acordar aquela madrugada foi abrir seu Novo Testamento em grego
e ler: "Ele nos tem dado grandíssimas e preciosas promessas,
para que por elas fiqueis participantes da natureza divina" (2
Pedro 1.4). Essa leitura, ele a teve como promessa da parte de Deus,
à sua salvação. Pouco antes de sair, abriu novamente
a Bíblia e leu as palavras: "Não estás longe
do Reino de Deus" (Mateus 12.24).
De tarde ele foi com muita esperança à catedral da Igreja
da Inglaterra no centro de Londres, onde ouviu o coral cantar o Salmo
130: "Contigo, porém, está o perdão, para
que te temam... Espere Israel no Senhor, pois no Senhor há
misericórdia, nele copiosa redenção (abundante
salvação). É ele quem redime (livra, liberta)
a Israel de todas as suas iniquidades (da escravidão do
pecado)."
Mas nada mais lhe aconteceu. Quando alguém o convidou para
ir a uma reunião na rua Aldersgate, ele não tinha a
mínima vontade de ir. Estava confuso e frustrado. (2)
Conversão - A Experiência do Coração Aquecido
Mesmo contrariado, Wesley foi àquela reunião essencialmente
leiga, à rua Aldersgate. Mas quem era esse John Wesley que
foi à reunião? Não o John Wesley, professor da
Universidade de Oxford e missionário da Sociedade para a Propagação
do Evangelho no Estrangeiro, embora possuísse tais títulos.
Era John Wesley, arrependido e suplicante de fé viva!
Na reunião, Wesley novamente ouviu a Palavra, desta vez a leitura
de um antigo comentário escrito por Martinho Lutero, pai da Reforma
Protestante, sobre a carta aos Romanos. Lutero, após uma longa
busca pelo "Deus gracioso", havia recebido a fé pela
leitura da Palavra.
Por volta de quinze para as nove da noite, enquanto a leitura descrevia
a mudança que Deus opera no coração pela fé
em Cristo, a Palavra de Deus também atingiu John Wesley. Afinal,
Paulo não havia escrito que "A fé era pelo ouvir
e o ouvir pela Palavra de Deus?" (Romanos 10.17)
Numa tentativa de por em palavras o que sentiu naquela hora, Wesley
disse que seu coração fora aquecido de modo estranho,
diferente, extraordinário... ouça.
Esta declaração se tornou famosa entre os metodistas,
inspirando a criação de sua conhecida logomarca.
Na realidade, seria de se esperar que, após treze anos de árdua
busca, a dádiva da fé viesse acompanhada de forte emoção,
natural e até importante, mas não deve ser entendida
como o fundamental da experiência.
Central na experiência foi a dádiva da fé e
as consequências disso. O que Wesley vivenciou naquela noite
e imediatamente depois, lhe deu os elementos fundamentais de sua doutrina
da salvação e a dinâmica força, necessárias
para o empenho da missão a que Deus o convocara. (2)
O Movimento
Sentindo-se amado por Deus e, desafiado a criar um movimento para
renovar a Igreja Anglicana, ajudou as pessoas a conhecerem o amor
de Deus e a trabalharem por um mundo melhor. Através de pequenos grupos,
Wesley organizou milhares de pessoas em equipes, procurando ser fiel
a Deus através de uma vida santificada.
John Wesley sentia que ser apenas convertido não era suficiente. Para
ser cristão verdadeiro, a pessoa precisava ter fé em Cristo, sentir
o amor de Deus e pôr em prática essa fé. Por isso, desde o início,
os metodistas, além de evangelizar, visitavam os presos, criavam escolas
e desenvolviam obras sociais. Ser metodista significava refletir o
amor de Cristo em todas as dimensões da vida. O povo metodista do
passado não limitava sua prática da fé com crenças, ou com projetos
assistencialistas, mas também lutando contra a escravidão. Wesley
entendia que tanto Satanás como o pecado viviam no coração das pessoas
e também nas estruturas sociais. Assim, a unidade da conversão individual
e a transformação da sociedade sempre foram características da Igreja
Metodista. (1)
A Igreja Metodista
Para John Wesley não era correto, nem bíblico, criar uma nova Igreja.
Na sua visão, a divisão da família cristã não pertencia ao projeto
de Deus. Por isso, o movimento metodista sempre teve um grande interesse
na unidade cristã. O metodismo começou como um movimento de renovação,
sem qualquer pretensão de criar uma nova igreja. Somente depois da
morte de John Wesley é que surgiu a Igreja Metodista, quando já não
havia mais possibilidade de continuar dentro da Igreja Anglicana.
(1)